Thursday, June 2, 2016

Miopia trabalhista perpétua

Nos dias atuais, o bombardeio de informações é tão maciço, que quase ninguém consegue mais separar o joio do trigo. De todas as direções, recebemos uma quantidade enorme de informações. Na verdade, tudo isso não passa apenas de problemas superficiais, que gasta o tempo e a atenção das pessoas para não se falar de problemas fundamentais. Mais ou menos como um sujeito que tem um câncer e em vez de fazer o tratamento adequado, com quimioterapia ou radioterapia, aplica-se uma pomada no pequeno corte que ele obteve ao tentar abrir uma lata, ignorando o que está matando-o.

Os Estados Unidos não seriam o país que são se não olhassem essa questão de maneira correta. O que moveu e move aquele país é a capacidade de oferecer trabalho aos que lá nasceram e mais a uma horda de trabalhadores vindos de outros lugares, de maneira legal ou não. Mas seria um milagre, essa oferta de empregos? Não, ela se deve simplesmente a uma flexibilidade nas relações trabalhistas. No Brasil, não há um setor sequer que procure abordar o tema, nem direita, nem esquerda, nem a Santa Igreja Católica, ninguém, uma vez que vigora em uma aberração chamada “Direito adquirido”, e quem se atrever a abordar o tema, não se elege nem a líder comunitário.

Esse “Direito adquirido”, se não interpelado de maneira firme, vai nos deixar Ad Eternum na mais completa vida terceiro mundana.

Os milhares de direitos dos trabalhadores são na verdade uma maravilha pra quem está empregado mas são os piores inimigos daqueles que precisam mais, ou seja, os que estão desempregados. Prestem atenção em um pensamento: todos os programas que existem supostamente pra ajudar e proteger os pobres, geram um efeito contrário!

E isso independe se quem os criou tinha ou não uma boa intenção. Porque nesses casos, temos sim os genuinamente bem intencionados, mas temos também os grupos de interesse por trás disso.

Dentre as enormes proteções pra quem está empregado, tome apenas uma como exemplo: o salário mínimo. Nesse caso, os grupos de interesses evidentemente são os sindicatos!! O bem intencionado inocente acredita que se tivermos uma lei que diz que um pobre coitado não pode ganhar menos do que 880 reais por mês, ele, como um ser bondoso e supremo, está protegendo o pobre trabalhador e este terá o mínimo assegurado.

Na verdade, com isso, ele está impedindo que quem não possua habilidade pra ganhar esse salário mínimo, não consiga ganhar nada. Isso é ajudar o pobre? Isso só diz ao empregador que ele não pode empregar uma pessoa que não tenha habilidade pra ganhar 880 reais, por exemplo, pois é contra a lei. O conceito do salário mínimo é altamente preconceituoso e excludente.

Uma secretária, que estudou o segundo grau, ganha 880 reais por mês. O cara que vai ser o jardineiro da sua casa não pode, por lei, ganhar 500 reais por mês. Ele nunca gastou um dia sequer na escola e está disposto, por vontade própria, a ganhar 500 reais por mês trabalhando de jardineiro.

Então esse cara vai ficar desempregado, sendo um ônus pro estado e pra sociedade em geral. Em outras palavras, esses 330 reais a mais que alguém pagaria ao jardineiro seria uma caridade, somente porque alguém decidiu que deveríamos pagar 880 reais a todos.

Mas caridade não pode ser imposta e o salário mínimo só gera mais pobreza e desemprego.

Tomemos como exemplo o caso das empregadas domésticas. Com o enrijecimento das leis que regem essa categoria, milhares de postos de trabalho foram extintos, pra nunca mais voltar. Ah, mas nos países de primeiro mundo também é caro ter uma empregada doméstica. É sim, verdade.

A única diferença é que, em países sérios, onde não há controle na negociação salarial, quase não existem empregadas domésticas fixas, mas aí é porque elas ganham quase o mesmo que o suposto patrão. Diarista é a forma mais comum por lá. Mas isso aconteceu não porque o governo estabeleceu um sistema protecionista dela e sim porque deixou a livre negociação entre dois adultos ocorrer.

O mercado e não o burocrata, decidiu que seria justo pagar 100 dólares por uma diária pra uma pessoa limpar a sua casa enquanto você está no seu trabalho. E se essa pessoa pedir 120 dólares, pois acha que merece, que se esforça muito, cabe a você pensar se quer continuar o serviço com ela ou não. Mas se o vizinho aceitar pagar 120 dólares e ela tiver mais 20 clientes pagando 120 dólares, ela quem não precisará mais de você. Engraçado não é, o que permite a livre negociação?

Assim como o sexo, onde dois adultos consentem em ter uma relação, o trabalho também deveria ser assim. Seria o mesmo que o governo interferir, por lei, como seria as relações sexuais entre os adultos que concordaram em ter aquela relação. Um juiz dizendo, mesmo que vocês dois queiram, minha filha, nós não deixamos, porque você é uma coitada e não sabe o que está fazendo. Mas ela quer, o sujeito quer, o problema é que o governo santo caridoso não permite.

O governo tem que existir pra corrigir as aberrações e não para se intrometer o que funciona pela ordem natural das coisas, como as relações sexuais saudáveis e as relações de trabalho entre uma empresa ou um patrão e seus funcionários.

Se eu ofereço por um serviço 100 reais e o sujeito aceita, o trabalho será feito e nós dois iremos ganhar. Se eu ofereço 100 reais por um serviço e o sujeito aceita mas o governo, mesmo não estando metido na negociação, diz que não, não ganhamos nem eu, nem o sujeito e nem o governo.

É difícil entender isso? Somente a flexibilização das leis trabalhistas será capaz de um dia alçar o Brasil ao posto de um país de primeiro mundo. De resto, é somente discutir a cor, a textura, o tamanho e a velocidade do raio da cilibrina.

Wednesday, March 9, 2016

O homem que não queria nada

Ele trabalhava sem nunca dar o melhor de si. Nunca se doava à nada do que fazia. Era daqueles sujeitos que apertava a sua mão como se estivesse pegando em algo gelado que se não soltasse logo, congelaria. Não gostava de elogio, e por isso nunca se esforçava. Não gostava de afeto, de conversa, de música, de livro, de festa, de bebida, não gostava de nada e nem de ninguém. Só gostava de jogar Candy Crush Saga e era isso que fazia quando não estava trabalhando. Ninguém conhecia nenhum membro da sua família, se é que ele já teve uma algum dia. Não tinha um escritor favorito, um artista, um ídolo. A única diferença pra ele entre o final de semana e a semana era que no sábado e no domingo ele não precisaria falar com ninguém, nem com o entregador de pizza, pois comprava pizza de supermercado mesmo, afinal, não via diferença entre a pizza congelada e a pizza feita num forno à lenha. Ah, e nos finais de semana, tinha mais tempo pra jogar CCS. Há muito tempo atrás teve uma mulher pela qual se apaixonou, mas por ele ser estranho demais, ela o deixou e ele ficou mais estranho ainda. Mas era calmo. Sua tristeza era triste mesmo, não fingia. Ter raiva e ter que argumentar ou lutar por seus direitos não estava nos seus planos e por isso a cabeça sempre baixa. Don Draper, de Mad Men, era o homem mais alegre do mundo se comparando com ele. Até que em um dia comum, em que ele acordou com calor, como sempre (nunca consertou o ar condicionado que quebrou pois não queria tratar com o cara que iria ajeitar a máquina), fez a barba, tomou seu banho frio, tomou seu café sem açúcar, comeu sua torrada com manteiga sem sal, pegou seu ônibus e chegou na empresa. Uma agência de publicidade estava lá filmando uma propaganda para a televisão. O diretor do comercial, um sujeito que tinha feito curso de cinema e que tinha um roteiro inteiro de um filme escrito, mas que não era beneficiado pela Lei Rouanet, reparou no sujeito que acabara de adentrar no recinto. O suposto cineasta, vestido como se estivesse num bar na beira da praia, como todo publicitário, deixou de prestar atenção na gravação do comercial e passou a reparar no sujeito. Ele se encaixava perfeitamente no papel principal do seu filme. Aquele, o diretor pensou, era o cara aonde a poesia morria. Ele parecia viciado em tristeza. Quase no fim do dia, quando acabaram as gravações, o diretor-publicitário procurou o sujeito e falou do seu filme. Ele recusou, lógico, disse que não tinha interesse. O diretor disse que ele iria ganhar um bom dinheiro caso o filme desse certo e que ele não teria que representar nada, somente teria que ser ele mesmo. Com muita luta, ele fez o filme sem representar, apenas sendo ele mesmo. O diretor teve o talento de captar toda aquela tristeza dentro da película. Ele não dizia nada, apenas olhava pra tela, olhava pra baixo, olhava a paisagem e bastava, quem assistia ao filme caía no choro. Uma tristeza que não gerava pena, nem compaixão, nem solidariedade. Gerava apenas mais tristeza em quem via. O filme foi um sucesso, o sujeito ganhou todos os prêmios que podia ganhar, mas nunca foi receber nenhum. Com o dinheiro que tinha ganho com o filme, somado com o que tinha juntado na sua vida franciscana, parou de trabalhar e mudou-se, para ninguém nunca mais encontrá-lo, embora ninguém soubesse onde era a casa que tinha o ar-condicionado quebrado. E o homem que não queria nada, teve tudo o que não queria e no fim das contas, sumiu deixando nada e nem ninguém para trás. Todos queriam uma entrevista ou um bate-papo com aquele homem. Alguns queriam tentar deixá-lo mais alegre, quem sabe um psicanalista, diziam outros. Tem gente que é assim. Vem ao mundo somente pra espalhar sua tristeza e uma tristeza tão triste, que todos batem palmas, porque queriam pelo menos ter a oportunidade de serem tristes assim, mas os outros não deixam. A tristeza alheia tem que ser respeitada, disse o diretor no epílogo. Felicidade não precisa, felicidade é bagunça, é chafurdo, é galhofa. A tristeza não, essa merece respeito!!

Thursday, March 3, 2016

Diálogo do criolo doido


O sujeito irritado com o Brasil.

- Não aguento mais esse país!!! É roubo pra todo lado, falcatrua, assaltos nas ruas, ninguém pode mais sair de casa!! Quero ir embora daqui!!!

Eu:

- Porque você não vai pro Canadá? É um ótimo lugar, vivi muitos anos lá e logo, logo, volto pra lá!!

Ele:

- Me arranje um emprego lá que eu vou!!! Vou na hora!!!

Eu:

- Rapaz, em primeiro lugar, eu não tenho agência de emprego. Segundo, você sabe pelo menos falar inglês ou francês?

Ele:

- Tá vendo? Você não me ajuda e nem sei falar essas línguas!!!

Eu:

- Você quer que eu arranje um emprego pra você e fique lá de tradutor? Porque você não começa um projeto de imigração, começando por entrar numa escola de línguas?

Ele:

- Não tenho tempo pra isso, além do que, não tenho mais idade pra aprender línguas!!

Eu:

- Cara, em primeiro lugar você tem que entender o que é morar fora do Brasil. Você não quer ir pra um lugar diferente dessa merda aqui? Então comece a mudar o seu jeito de pensar. Se quer ganhar em dólar com o sistema daqui, desista. Você quer ir com emprego garantido, que pensa que vai ganhar rios de dinheiro sem fazer nada. À la Assembleia Legislativa do RN. Não tem interesse em aprender pelo menos o inglês e aposto que não aceita encarar sub-empregos até se adaptar, não aceita fazer as tarefas domésticas, nem ao menos colocar gasolina no próprio carro, entre tantas outras coisas...

No final das contas, ele diz:

- Pois é, vai ter um show de Aviões do Forró sábado, tu vai?

Wednesday, February 10, 2016

O consumidor é uma criança mimada

Na Foto acima, tirada por mim, uma loja da Zellers sendo reformada pra se transformar em Target, na Erin Mills Road, em Missisauga. 

As hordas de brasileiros que viajam aos Estados Unidos adoram adentrar nas lojas da Target. Lá tem muita coisa interessante, não só para os consumidores brasileiros, mas também para os habitantes da terra do Uncle Sam.

A Target é a segunda maior empresa do gênero nos Estados Unidos, ficando atrás apenas do Wal-Mart, as lojas de Sam Walton. Sua sede é em Minneapolis, no Estado de Minnesota. Foi fundada em 1902, seu nome antes era Goodfellow Dry Goods. A primeira com o nome de Target foi aberta em 1962. Hoje conta com 1801 lojas espalhadas pelos Estados Unidos. É um gigante que fatura 70 bilhões de dólares por ano.

Por outro lado existia uma grande empresa do mesmo setor no Canadá chamada Zellers. A Zellers foi fundada em 1931, em Brampton, Ontário, Canadá. Foi vendida pra Hudson Bay Company, em 1978. Nos anos 1990, a Zellers chegou ao seu auge, com 350 lojas espalhadas pelo Canadá. O Walmart, no Canadá, é tido como o principal culpado da derrocada da Zellers, uma vez que esta não teve como competir com o gigante americano.

Eis que em 2011, a Target decide comprar a Zellers, que já havia sido comprada por um investidor privado. A Zellers tinha 220 lojas nessa época e a Target pagou 1 bilhão e 800 milhões de dólares pela empresa, sublocando os prédios à própria Zellers, que só viria a fechar as portas definitivamente em março de 2013, quando a Target começou a operar no Canadá.

Desde que cheguei no Canadá, tive o cartão da Zellers. Era como uma espécie de entrada pra se ter crédito. Eles davam pequenos créditos de 500 dólares, que ia aumentando caso o pagador fosse bom. Isso abria o nome do cidadão no Bureau de Crédito. Os produtos deles eram inferiores aos do Wal-Mart e os preços similares. O que a salvou por algum tempo foi de fato essa oportunidade de crédito aos menos favorecidos e imigrantes recém-chegados e o Wal-Mart sempre foi péssimo de crédito no Canadá.

Em apenas dois anos, no começo de 2015, a Target Canadá pediu concordata e fechou todas as lojas que tinha no Canadá. Alguns analistas dizem que entre 2011 e 2013, eles não tiveram tempo o suficiente pra se adequarem ao mercado canadense. Outros analistas dizem que o problema principal foi a questão da logística. Mas na verdade, um problema não exclui o outro. Nao tiveram tempo de preparar a logística.

Não existia uma viva alma que acreditasse que a Target iria quebrar a cara como quebrou. Mas aconteceu. O sistema de logística da Target afundou a empresa, simplesmente porque não tinha os produtos nas prateleiras do lado canadense da fronteira. E sem os produtos, como o consumidor comprar? Hoje em dia, o consumidor não é mais aquele que fazia fila na frente das lojas pra comprar um quilo de açúcar. Hoje em dia, todos tem o açúcar e o consumidor não tem mais tempo pra esperar.

Mas como pode uma empresa experiente e bem-sucedida como a Target não saber disso e eu saber? Lógico que ela sabia. O que não sabia é que não teriam tempo pra se ajustar à uma realidade que não conheciam, apesar de serem dois países vizinhos e de mentalidade quase similar.

O sistema de logística, ou o cerébro desse tipo de operações, é quem diz o que tem na loja, o que pedir, o que vende mais, o que vende menos, quantos dias antecipadamente pedir pra não faltar, e tudo o mais. Outro dia fui numa banca em João Pessoa e observei um vendedor da Sousa Cruz fazendo um pedido de cigarros, com seu tablet na mao. Ele ia perguntando e o dono da banca ia dizendo: 6 hollywoods, 5 Carlton, 8 Minister e etc. O dono dessa banca é o sistema de logística dele, simplisticamente falando. Se ele não tiver lá, os cigarros vão faltar ou não chegar a tempo ou ficar sobrando, empatando dinheiro à toa.

Agora imagine isso pra uma cadeia com 127 lojas, com milhares de produtos em cada uma. Sem um sistema desses de logística, como pode dar certo? A logística é um fator chave de sucesso e derrota das empresas nos dias de hoje. Quanto de estoque devo ter? Qual o estoque mínimo? Está o consumidor disposto a esperar vários dias por um mercadoria, caso eu não a tenha naquele momento? Esse equilíbrio é essencial.

O fato é que o sistema usado na Target nos Estados Unidos não funcionou no Canadá, por questões de medidas, língua, moeda e outros trique-triques. Não teriam tempo de fazer as adaptações necessárias e decidiram optar por um usar um sistema que já vinha dando problemas de implementação às empresas canadenses.

Começaram do zero. Mas o sistema canadense, que na verdade é alemão, só funcionava com muita informação sobre cada produto, o que levava muito tempo pra preencher e tinha que ser feito manualmente. Se não estivesse tudo completinho, o sistema não operava. Outro problema, ninguém sabia operar o sistema de forma correta. Além disso, o pessoal contratado pra preencher esses dados manualmente, não faziam de forma precisa, o que gerou um problema ainda maior. Colocavam qualquer coisa só pro programa aceitar e irem em frente, como dados repetidos.

O que aconteceu como resultado foi um caos total. O que aparentemente são coisas simples de resolver, viraram o calcanhar de Aquiles. Alguns exemplos. O produto vinha dos Estados Unidos em polegadas, o sistema canadense é métrico. A conversão apressada ou a ausência delas fez com que os produtos não coubesse nos caminhões, containers e prateleiras da maneira como era calculado. O peso vinha de lá em libras e o Canadá trabalha com quilos. Outro problema. As papeladas de importações eram preenchidas com esses erros de medidas e peso e os caminhoes e navios ficavam parados com a mercadoria dentro e consumidor final esperando. Esses foram alguns exemplos mas vocês já perceberam aonde quero chegar.

No inverno de 2005, trabalhei no Warehouse da GAP, que envolvia as operações da GAP, Old Navy e Banana Republic, todas da mesma corporação. Lá eu pude ver um centro de logística por dentro, em todas as suas fases. As roupas chegavam de um lado do galpão, vindas dos fabricantes, geralmente de países de terceiro mundo asiáticos. Os funcionários tinham que desembalar essas caixas, que vinham, por exemplo, 50 camisas verdes, de gola em V, tamanho M, da GAP. Dali iam pra um local onde outra equipe já tinha os pedidos das lojas prontos. Loja 1 queria 3 camisas dessas, mas queria tantas amarelas, tamanho P, outras vermelhas tamanho G e por ai vai. E queriam também da Old Navy. E da Banana Republic.

Depois essas novas caixas criadas com os pedidos das lojas iam pras esteiras, que já iam pros pallets, que iam pros caminhoes que iam levar pra determinadas regiões. Ficavam uns 8 caminhões com as portas de trás abertas, um frio infernal, e os caboclos enchendo. E se não tiver o funcionário treinado pra operar o software em cada etapa? E cuidar para que fisicamente aquelas caixas estejam em determinado pallet, que cada caixa esteja com as peças corretas? O negócio para mesmo. E parando, ficam os caminhões lá fora, recebendo hora extra, podendo até perder o navio que vai mandar pra outro lugar. Tudo tem que trablhar correto.

Uma empresa, não importa o tamanho dela, não pode deixar o consumidor sem o produto à sua disposição. Sem o produto, o vendedor não pode fazer milagre e muito menos fabricá-lo ali na hora. Seja fabricante, seja revendedor, o produto tem que estar ali, brilhando, lindo e maravilhoso, pra essa criança mimada que não pode esperar chamado consumidor.

Se abrir as portas pra um determinado mercado, abra com produtos à disposição, caso contrário, essas portas serão fechadas antes mesmo de você saber o porque. Lembro sempre que a lanchonete Pittsburg, em Natal, sempre tinha o que se pedia, enquanto que o Sandunas, sempre faltava algum ingrediente. Quem é de Natal sabe o destino das duas empresas. Hoje em dia, pra piorar, o boca-a-boca não é só de um pra outro, nas rodas de amigos, é online e nas redes sociais.

Fabiano Holanda, João Pessoa, 10 de Fevereiro de 2016.

Saturday, August 8, 2015

Molhando os pés na água

Em março de 2000, mesmo tendo ido e estar morando na mesma casa de Zumel, parei de vê-lo. Ele arranou uma namorada e praticamente se mudou pra casa dela. Não fiquei nem sabendo quando ele voltou pro Brasil. Eu sei que eu voltei no fim de março, quando a primavera chegava com seu esplendor nas ruas de Montréal. Justiça seja feita, Montréal é uma das cidades que se dá muito bem com a primavera.

Com o pessoal do francês e Rosel, grande amigo que fiz por lá, fui conhecer a famosa celebração de Saint Patrick. Cervejas com coloração verde e muita animação. Foi com isso na cabeça que deixei Montréal, doido para voltar e ficar lá de vez. O Brasil havia perdido completamente a graça pra mim. Morar lá era uma coisa que não passava pela minha cabeça. Hipotese zero. Montréal havia me conquistado com suas cores, cheiros, charme, inverno, primavera, grandiosidade e uma certeza que eu tinha que conhecia aquele lugar não sei de onde.

Nas noites em que eu passava na casa do Padre Pierre, eu tinha disponível no meu quarto um rádio-relógio-despertador. Eu me sentava na escrivaninha e ia fazer, apagar e refazer os exercicios de francês, o estudo do passé composé, e toda essa onda. Um belo dia, resolvi ligar o bendito rádio. Estava sintonizado numa estação AM. Quando liguei, tocava uma música chamada Get Together, dos Youngbloods. Caramba, chega deu arrepio agora. Voltei ao inverno de 2000. Bem, se eu disser que me lembro o nome da rádio, estarei mentindo. Só sei que outras músicas vieram e eu gostei de todas. Peguei um durex e colei no seletor pra não mudarem a rádio, algum desavisado. E essa rádio passou a ser minha companheira. Dormia e acordava com ela.

Na casa do Padre Pierre tinha de tudo e do melhor. Foi um presente de Deus. Íamos às missas no Oratório St-Joseph aos domingos, pois o Padre Pierre trabalhava lá. Fomos no cume da Igreja, o que é proibído, mas como ele tinha a chave, tivemos acesso. A visão lá de cima é a mais bonita da cidade. Fomos também conhecer Ottawa e uma fazenda da Igreja Católica, onde? Nao tenho a menor ideia. Mas foi com direito à lareira, vinho e tira-gosto à noite toda. Aqueles religiosos sabem viver.

Existia um bar chamado Les Bobards, onde acho, até hoje tocam música brasileira aos domingos, na Avenida St-Laurent. No meu último finao de semana em Montréal, depois de uma festa na casa de um brasileiro no Plateau, fui com um cara chamado Celso Mirres e um peruano chamado Lúcio, para o Les Bobards. Lá jogamos sinuca e bebemos muito. Os caras pagaram. Eu já estava liso. E conversando, comentei com Celso dos meus planos de voltar à Montréal para fazer o mestrado. Ele disse conseguir emprego pra mim e que eu poderia ficar na casa dele até me organizar. Nao botei fé, mas mesmo assim guardei o e-mail dele.

Fui ao Brasil me formar, peguei o diploma e precisamente no dia 5 de setembro de 2000, eu voltava pra Montréal. Escrevi pra Celso nesse interim, ele manteve a palavra. Avisei quando chegava, ele disse: “Ok, Paraíba, te pego no aeroporto”. E lá estava ele no dia 6 de setembro quando cheguei, numa manhã congelante, no aeroporto Pierre Eliott Trudeau International Airport, em Montréal, que na época era chamado de Montreal-Dorval Airport International Airport.

Portava roupas de trabalho e disse, “Paraíba, tu não disse que queria trabalhar? Vamos trabalhar!”. Dali, partiu pra Ville de St-Laurent onde ficava a fábrica Edicilble, que ele trabalhava como operador de máquinas. Minha função seria de faz-tudo.

Era uma gráfica gigante, basicamente. Tinhamos que montar caixas, empacotar panfletos, retirar pacotes de livros quando prontos, ou seja, um trabalho bem intelectual. O tempo simplesmente não passava e como eu não tinha permissão para trabalhar, eu o fazia de forma ilegal. Para isso acontecer, eu trabalhava pra uma agencia de um árabe, muito simpático. Ganhava 5 dólares por hora e ainda descontavam o almoço, ou seja, ganhava 37 dólares e 50 centavos por dia. Multiplicado por cinco, dava 187.50 por semana, 750 dólares por mês. Eu tinha que sair dali. Esse dinheiro dava enquanto eu morava de favor na casa de Celso, mas eu queria ir pro meu lugar. Estava ficando desesperado, até que ocorreu um fato que apressou essa minha decisão.

No auge do meu cansaço, vi uma pilha de livros na minha frente. O cerebro ordenou para que eu fosse pegar e colocar em uma caixa. Quando eu estiquei os dois braços pra pegar a pilha de livros, ouvi um grito, como o amigo índio que avisou Kid Morengueira do perigo, e recolhi minhas maos instintivamente. Senti ainda o vento da guilhotina que desceu para aparar as arestas dessa pilha de livros. Naquele momento, entendi que meu muito enriquecedor período de trabalho ali tinha chegado ao fim.

Mas antes disso, logo que cheguei, uns dois dias depois, um pessoal amigo de Celso havia ganho um sorteio num bar chamado La cage aux sports. Eram quatro tickets, que davam direito à uma viagem de Montréal à Hamilton, Ontário, no trem, junto com o time de futebol de Montreal, Les Alouettes. Pegamos o trem na Gare Centrale, junto com o time, e fomos no vinho até o destino final, sete horas depois. Chegando lá uma grande festa, ganhamos o jogo e apareci até na televisão apertando a mão de um dos jogadores. Momentos alegres que antecederam momentos de muito trabalho e seriedade.

Thursday, July 9, 2015

Quebrado e feliz

Aos 24 anos de idade tudo é aventura. Eu vivia de um salário mínimo como bolsista do Cnpq e uma parca mesada do meu velho pai. Meu plano inicial no começo de 1999 era fazer um mestrado na Fundação Getúlio Vargas ou USP. Juntei-me à base de pesquisa do professor Miguel Moreno na UFRN para melhorar meu curriculum acadêmico (e também para ter acesso ilimitado à Internet, que naquela época pagava-se por minuto discado, qualquer economia valia), ministrei mini-cursos e oficinas, apresentei trabalhos em congressos científicos, onde recebi prêmio de melhor apresentação oral com um trabalho sobre o porto de Natal ser equipado para receber os carros que vinham da Europa e Estados Unidos. É, não é de hoje que se pensa em usar a localização geográfica de Natal para se obter vantagens logísticas. Os americanos já o fizeram na Segunda Guerra e eu tentei fazer em 99.

Os planos de fazer mestrado no Brasil naufragaram quando o nosso líder da base de pesquisa, professor Miguel, anunciou que iria fazer o seu pós doutorado em Montreal, no Canadá, na HEC Montreal, onde a elite de negócios francófona toda passava por seus bancos. Ele perguntou se eu não queria ir fazer meu mestrado lá. Lógico, tudo por minha conta. Cheguei em casa animado, meu pai não ficou, estava em condições financeiras precárias na época, mas depois cedeu. Os guias espirituais dele devem ter aconselhado: manda teu menino embora, isso aqui só vai piorar!!! Arranjei dinheiro com um, arranjei dinheiro com outro, pra visto, passaporte, passagem (Obrigado Teco, Gagau e Alberto) e fui embora pra Montreal nos últimos dias de 1999, carregando 220 dolares no bolso e muita coragem.

A passagem havia sido 700 dólares na STB de Maninho. Gustavo Zumel, meu comparsa de UFRN veio também com os mesmos planos. Vendi até uma mortalha que havia comprado pro Carnatal, estava mesmo focado. Vínhamos pra tentar aprender um pouco de francês, curso de três meses, que custou outros 1600 dolares a menos nas já combalidas finanças de Jajá. Com o diploma desse curso, a aceitação no mestrado era mais fácil. Ou seja, esse investimento todo inicial não era garantia de nada, pois se a universidade não nos aceitasse, seria em vão tanto sacrifício. O que aconteceu com Zumel. Eu fui aceito, ele não, o que diminuiu muito minha motivação.

Em quatro dias em Montreal, pagando o táxi do aeroporto, hotel e alimentação, meu dinheiro acabou. Papai se virou e arrumou mais um pouco e no décimo dia, depois de muita confusão, conseguimos uma hospedagem em uma casa da Igreja Católica, com o padre Pierre, que dava um quarto individual e três refeições e lanches, tudo por 300 dolares mensais. Almoçava numa pizzaria onde duas fatias e uma Coca-Cola custava 5 dolares. O dono, um romeno da cabeça raspada, todo dia ria porque eu misturava ketchup e maionese na pizza. O passe mensal do metrô custava 45 dolares. Eu não almoçava na casa do padre, pois demoraria ir e voltar e o curso de francês era intensivo, o dia inteiro socado na Universidade de Montreal. Restaurante e saída à noite nem pensar. No máximo, uma caixa de seis cervejas, que custava 9 dolares, pra beber em casa ou na casa de algum amigo do curso. Parece duro, bem duro. E é. O liseu é desmoralizante. Inclusive descobri muitos anos depois que os conceitos sobre riqueza são flutuantes. Naquela época, rico pra mim era quem frequentava restaurantes.

Mas, entre estar liso em Natal, no calor, tinha mais graça pra mim estar liso em Montreal, no frio e de casaco emprestado de Gustavo Sousa, da época em que ele morava no Arkansas. Não ter que escutar o forró, sertanejo e axé era também um plus. Alguns professores da UFRN apoiaram meu projeto e aliviaram nas faltas (obrigado Cassio Barreto, Julio Resende, José Arimates), mas outros atrapalharam e muito. Não citarei nomes pois sou um menino que não guarda mágoas por mais de três anos. Nos formamos em agosto de 2000. Ainda liso, e devendo, não me inscrevi nos festejos de formatura.

Daniel Pinheiro, organizador, disse que era pra eu ir mesmo assim. Não fui.

Esse período inicial de três meses em Montreal me trouxe quatro conceitos que ficaram pra sempre na minha personalidade, que não tem dinheiro que pague. 1) - Aprendi firmemente o conceito de pontualidade e principalmente, 2) A idéia de que causa e consequência realmente funciona em lugares sérios. Mas, mais importante, 3) - Aprendi que se você correr atrás, as coisas começam a acontecer mesmo sendo demais pra você acreditar!! Por fim, 4) - O gosto da falta de independência financeira é muito amargo e as vezes por isso nossa história pode ser bem diferente. Os ricos da classe de francês iam esquiar, iam pra teatro, cinema, restaurantes, alugavam carros, ou seja, tiveram uma experiência muito diferente da minha. Mas eu tinha uma coisa que poucos tinham, uma vontade de vencer muito grande e isso poderia fazer uma diferença no final, afinal a corrida não termina no meio.

Monday, June 29, 2015

Decadência manufatureira



Entrei no setor de serviços no Canadá em meados de 2004, mais precisamente na província de Ontário. Primeiramente e por pouco tempo, no setor de entregas de eletrodomésticos e depois no setor de manutenção e limpeza comercial e industrial, até os dias atuais. Tinhamos uma abundância de trabalhos, por todos os lados. Escolhíamos preços e quando realizar o trabalho. O quadro que temos hoje em dia é bastante desestimulante, principalmente no setor manufatureiro. 

Quando as empresas tem lucro, elas precisam apresentar custos pra diminuir a conta de impostos. Quando não se tem esses lucros todos, não se pode contratar empresas de serviços, salvo as urgentes, pois passa a ser uma burrice tributária. Muitas empresas hoje em dia, grandes empresas, possuem grandes tambores de lixo nos corredores e os próprios funcionarios levantam no final do expediente pra esvaziarem suas próprias lixeiras. Isso gera desemprego pra quem prestava esse serviço anteriormente. Isso é apenas uma das facetas, mas os sinais estão por todos os lados.

Predominantemente, eu sempre tive contratos no setor manufatureiro. Esse setor corresponde por 170 bilhões de dólares ao PIB Canadense, e empregam cerca de 1,7 milhão de pessoas. Por coincidência, como frisei, eu adentrei na indústria justamente quando havia um declínio do setor manufatureiro. Entre 2000 e 2013, houve uma declínio de 14% do setor. No mesmo período, a economia canadense cresceu 37%. 

O Canadá enfrenta o problema geral da manufatura dos países do primeiro mundo, ou seja, a competição com países que possuem custos mais baixos de produção. Além disso, como o Canadá tem principalmente apenas um grande consumidor, os Estados Unidos, e eles estavam muito bem das pernas ultimamente, o fato acrescentou na crise manufatureira canadense. E mesmo com a economia americana dando sinais de recuperação, ainda vai ser relativamente devagar em comparação às economias emergentes.

Para agravar ainda mais o quadro, o setor manufatureiro canadense não está encontrando mão-de-obra qualificada, pois os engenheiros mecânicos, engenheiros eletricistas e engenheiros mecatrônicos que se formam nas universidades canadenses, estão todos conseguindo empregos nos Estados Unidos, onde os salários são mais altos e os impostos menos salgados. A equação é simples. Fazem universidade no Canadá, pois são mais baratas e depois descem em manada pro sul. Ou seja, a inovação não acontecerá por aqui.

Praxe tem se tornado que as empresas de serviços aceitem uma redução de 20 até 30% dos preços dos seus serviços, para se manterem abertas e funcionando. Com os preços do petróleo em baixa, a província de Alberta, onde está o óleo canadense, também está sofrendo. Por outro lado, existem grandes investimentos nas áreas de tecnologia de informação e saúde. Talvez seja esse o caminho.

O meu primeiro trabalho aqui foi em uma fábrica, ainda no segundo semestre de 2000. Na Ville de St-Laurent, perto de Montréal. O trabalho numa fábrica congela o tempo, ele não passa. O tédio e a repetição também pode impulsionar a turma a mudar de emprego sempre que podem, aumentando a rotatividade do setor. Acho que foi Bill Gates quem previu esse movimento de uma queda na manufatura Seja quem for, parece que está acertando, pelo menos no mundo ocidental americano frio.