"Mother, should I run for president? Mother, should I trust the government? Mother, will they put me in the firing line? Is it just a waste of time?"
Pink Floyd
Eu tenho um pensamento
totalitário. Sempre quero conhecer o começo, o meio e se possível, o fim das histórias.
Se alguem está contando uma história e eu não conheço o começo, ignoro
completamente, saindo de perto pra não me contaminar com aquilo. Agora se estou
em uma conversa desde o início, há grandes chances de eu me interessar
profundamente, mesmo que seja o assunto mais trivial possivel.
Assim, me pego sempre querendo me
lembrar qual seria o íncio da memória que está gravada no Hard Disc do meu cerebro. Tenho ciência de que morei até 1978, ou
seja até os três anos de idade no conjunto Mirassol, em Natal, mas não lembro das
coisas que ocorreram lá. Lembro das fotos e do que me contam, mas eu mesmo não lembro
de nada. Um diálogo, uma briga, um evento significante, nada.
Então nos mudamos pra uma casa
nova que papai havia construído em Morro Branco e que eu iria morar nela até
sair do Brasil, em 1999. A minha memória mais remota ainda não é de ordem
visual, mas sim olfativa. Lembro chegando naquela casa e o cheiro de tinta
entrando nariz adentro e fazendo com que eu ficasse apaixonado por aquela vida
nova. A tinta parece, hoje, era o símbolo da mudança, de uma nova era.
Novamente um hiato, como se
precisasse de uma desfragmentação no HD, e minha memória seguinte pula pra casa
da minha avó Vanda, no ano de 1979. Eu pulava de um sofá para o outro, animado,
quando errei um desses pulos e caí, quebrando minha perna. Não sei se quebrou,
mas sei que doeu muito, me levaram pro hospital e eu fui pra casa nova com a
perna engessada.
A partir daí, começam a aparecer
mais coisas, o que deixa mais confuso ainda esse mapeamento. Não sei precisar o
ano, mas vinhamos no nosso carro, eu, meu irmao e meus pais e meu pai decidiu
parar na casa de um amigo, onde estava sendo realizada uma festa. Nessa casa,
ele escorrega e cai em cima de um vidro, muito sangue saía de sua mão, foi pro
hospital e a partir desse fato, nunca mais foi possível pra ele dobrar o polegar
da mão direita.
Tive um professor no mestrado
chamado Allan Chanlat e ele dizia que a melhor forma de testarmos e observarmos
as teorias sobre o comportamento humano são com nossos filhos. Minhas filhas
completarão 9 anos da vida em junho próximo e converso muito com elas, buscando
sempre essas informações e de fato, pude concluir que as lembranças das pessoas
nos primeiros anos de vida parece que são apagadas quase que por completo.
Talvez uma sábia providencia
divina, ou da natureza como queiram alguns, para que não nos lembremos dos
momentos embaraçosos que vivemos nessa época, onde por exemplo, faziamos nossas
necessidades fisiológicas sem controle.
O mesmo me parece que ocorre
quando nos aproximamos do fim da vida na velhice. Pra quem tem a felicidade ou
infelicidade de viver muito, a memória vai sumindo aos poucos, para que esses
momentos embaraçosos da velhice não sejam notados e muito menos para que não nos
atormentemos com o que já passou ou lembrando de quem não está mais entre nós.
Concluímos assim que, falta de
memória é uma benção divina, em vez de uma fraqueza, como pensam alguns. O desmemoriado
vive sorrindo, vota novamente no PT, pega novamente a rua errada e sorri, não lembra
de pagar suas contas e jamais mantém inimigos, afinal, o que foi que eles fizeram
mesmo? O bom mesmo é ser bebê ou ser ancião, onde o HD não registra nada e
mesmo assim todos gostam da gente. Perfeito mesmo se todos pudessem fazer uma
formatação completa e recomeçar do zero quando quisesse.
Fabiano Holanda, Oakville, 11 de
Abril de 2015.