Ele
trabalhava sem nunca dar o melhor de si. Nunca se doava à nada do
que fazia. Era daqueles sujeitos que apertava a sua mão como se
estivesse pegando em algo gelado que se não soltasse logo,
congelaria. Não gostava de elogio, e por isso nunca se esforçava.
Não gostava de afeto, de conversa, de música, de livro, de festa,
de bebida, não gostava de nada e nem de ninguém. Só gostava de
jogar Candy Crush Saga
e era isso que fazia quando não estava trabalhando. Ninguém
conhecia nenhum membro da sua família, se é que ele já teve uma
algum dia. Não tinha um escritor favorito, um artista, um ídolo. A
única diferença pra ele entre o final de semana e a semana era que
no sábado e no domingo ele não precisaria falar com ninguém, nem
com o entregador de pizza, pois comprava pizza de supermercado mesmo,
afinal, não via diferença entre a pizza congelada e a pizza feita
num forno à lenha. Ah, e nos finais de semana, tinha mais tempo pra
jogar CCS. Há muito tempo atrás teve uma mulher pela qual se
apaixonou, mas por ele ser estranho demais, ela o deixou e ele ficou
mais estranho ainda. Mas era calmo. Sua tristeza era triste mesmo,
não fingia. Ter raiva e ter que argumentar ou lutar por seus
direitos não estava nos seus planos e por isso a cabeça sempre
baixa. Don Draper, de
Mad Men, era o homem
mais alegre do mundo se comparando com ele. Até que em um dia comum,
em que ele acordou com calor, como sempre (nunca consertou o ar
condicionado que quebrou pois não queria tratar com o cara que iria
ajeitar a máquina), fez a barba, tomou seu banho frio, tomou seu
café sem açúcar, comeu sua torrada com manteiga sem sal, pegou seu
ônibus e chegou na empresa. Uma agência de publicidade estava lá
filmando uma propaganda para a televisão. O diretor do comercial, um
sujeito que tinha feito curso de cinema e que tinha um roteiro
inteiro de um filme escrito, mas que não era beneficiado pela Lei
Rouanet, reparou no sujeito que
acabara de adentrar no recinto. O suposto cineasta, vestido como se
estivesse num bar na beira da praia, como todo publicitário, deixou
de prestar atenção na gravação do comercial e passou a reparar no
sujeito. Ele se encaixava perfeitamente no papel principal do seu
filme. Aquele, o diretor pensou, era o cara aonde a poesia morria.
Ele parecia viciado em tristeza. Quase no fim do dia, quando acabaram
as gravações, o diretor-publicitário procurou o sujeito e falou do
seu filme. Ele recusou, lógico, disse que não tinha interesse. O
diretor disse que ele iria ganhar um bom dinheiro caso o filme desse
certo e que ele não teria que representar nada, somente teria que
ser ele mesmo. Com muita luta, ele fez o filme sem representar,
apenas sendo ele mesmo. O diretor teve o talento de captar toda
aquela tristeza dentro da película. Ele não dizia nada, apenas
olhava pra tela, olhava pra baixo, olhava a paisagem e bastava, quem
assistia ao filme caía no choro. Uma tristeza que não gerava pena,
nem compaixão, nem solidariedade. Gerava apenas mais tristeza em
quem via. O filme foi um sucesso, o sujeito ganhou todos os prêmios
que podia ganhar, mas nunca foi receber nenhum. Com o dinheiro que
tinha ganho com o filme, somado com o que tinha juntado na sua vida
franciscana, parou de trabalhar e mudou-se, para ninguém nunca mais
encontrá-lo, embora ninguém soubesse onde era a casa que tinha o
ar-condicionado quebrado. E o homem que não queria nada, teve tudo o
que não queria e no fim das contas, sumiu deixando nada e nem
ninguém para trás. Todos queriam uma entrevista ou um bate-papo com
aquele homem. Alguns queriam tentar deixá-lo mais alegre, quem sabe
um psicanalista, diziam outros. Tem gente que é assim. Vem ao mundo
somente pra espalhar sua tristeza e uma tristeza tão triste, que
todos batem palmas, porque queriam pelo menos ter a oportunidade de
serem tristes assim, mas os outros não deixam. A tristeza alheia tem
que ser respeitada, disse o diretor no epílogo. Felicidade não
precisa, felicidade é bagunça, é chafurdo, é galhofa. A tristeza
não, essa merece respeito!!
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