Eu possuo uma teoria hoje em dia, mas naquele tempo não havia
formulado ainda. Ela consiste no preceito de que quando você tem
dinheiro no banco de sobra, você está protegido contra os
desprazeres da vida, como um pneu furar, o carro quebrar, uma batida,
até mesmo a ter uma unha encravada.
Por outro lado, se uma
pessoa estiver com pouco dinheiro, tudo acontece pra varrer este
minguado numerário pra longe de você. Ou pior, caso você não
tenha nenhum, a desgraça é maior ainda, pois terás que viver
endividado e com dores. O que ocorreu foi que pra nós, o visto tinha
que ser encravado em algum pedaço de pau lá pelo consulado
canadense, ao invés de sair de maneira suave. Pediram uma entrevista
e queriam nos ver pessoalmente em São Paulo. Puta que pariu, mais
duas diárias de hotel na terra da garoa somadas no nosso orçamento,
pro total desespero do velho Jajá.
Combinei de pagar uma
diária e Zumel ficou de pagar outra. O nosso amigo Doido Kiko, que
hoje atende pelo nome de Magno e é um alto bichão da Fundação
Getúlio Vargas no Rio de Janeiro, tinha um amigo chamado Ramon, que
por sua vez tinha uma agência de viagem e nos conseguiu um preço
camarada. Custava 80 reais cada diária, me lembro até hoje, no
hotel Othon, no centro de São Paulo. Só pra se ter uma ideia, a
minha bolsa do CNPq era de 240 reais por mês (O salário mínimo da
época). Três diárias e eu gastaria minha bolsa inteira.
Sem pensar nisso, pegamos
o nosso avião da Fly, uma companhia aérea que desapareceu da
mesma forma como apareceu, voando. Pegamos é uma forma de dizer,
pois eu cheguei atrasado e Zumel ficou praticamente segurando a porta
do avião com uma mão e com a outra mão segurando o braço da
aeromoça, para que me esperassem. Ou ele estava com medo de ir
sozinho ou gostava muito de mim. Como não acredito nessa ultima
razão, acho que o puto estava se cagando de medo de ir sozinho.
O detalhe era que esse
avião mais parecia um onibus daquele que fazia a linha Natal-Patu.
Só faltavam as aves (galinha, papagaio, canário, etc), mas o resto
era igual. Tinha um sertanejo, vestido e paramentado de sertanejo
mesmo, com toda a indumentária que você veria num filme de Lampião,
com a mala retangular de couro surrado meio das pernas e estava do
meu lado, dando a impressão que era um conhecido meu. Ele estava com
tanto medo de voar que se segurava na cadeira de forma tão agressiva
que quando se levantou quase que leva junto com ele o assento. Zumel,
com aquela cara de Mister Bean dele, disse pra mim, olhando bem no
rosto do senhor: É, cachorrão, o nordestino é antes de tudo um
forte.
O senhor começou a fazer
perguntas e eu batendo um agradável papo com ele e Zumel. No fim das
contas, o papo que eu bati com ele fez com que a viagem fosse mais
rápida. Ele estava começando um negócio de ir à São Paulo
comprar camisas pra vender no nordeste. Alem de forte, era um
empreendedor, Zumel deveria acrescentar na sua frase. O voo foi
tranquilo e chegamos em São Paulo sem maiores problemas.
O amigo de Kiko nos deu
um panfleto com o nome de uma empresa de onibus que fazia o trajeto
aeroporto de Guarulhos-hoteis. Disse que só era procurar esse
onibus, colocar as malas dentro e pagar acho que 9 reais, que o
motorista iria fazer um tour pelos hotéis. Quando a gente visse o
nosso, pediríamos pra descer. O negócio foi que aquele era um papo
furado. O onibus foi até uma tal de Praça da República e por lá
parou. Incrédulos, começamos a observar o motorista esvaziar o
compartimento de bagagens, inclusive as nossas quatro malas. E já
estava escurecendo. Descemos correndo do onibus e fomos ter com o
filho da puta do motorista, que nos disse, sorrindo, que era bom a
gente desaparecer logo dali pois aquela praça era cheia de ladroes e
muito perigosa.