Eu comecei
contando como desisti da vida academica. Vou contar como fui parar
tão longe pra descobrir isso. De repente, chega Miguel com uns
folders e panfletos, de uma universidade no Canadá, chamada HEC
(École des Hautes Études Commerciales), onde existia lá um
sujeito chamado Allain Joly, que tinha feito doutorado com ele na
Getúlio Vargas, em São Paulo e esse indivíduo estava chamando
Miguel pra ir fazer o seu pós-doutorado por lá. Meu amigo Gustavo
Zumel estava na sala comigo e eu disse: “Se fosse eu, ia na
hora!!”. Zumel disse que iria também. Miguel então disse:
“Usted tiene coraje miesmo?”. Nós reafirmamos e ele então
disse que iria arranjar tudo e talvez até uma bolsa.
Zumel ficou tão
empolgado quanto eu e saímos em busca das nossas famílias pra
comunicar tal fato. Com os papeis em mãos, corri pra casa pra
mostrar pro meu pai. O velho Jajá olhou, olhou novamente, passou a
mão nos poucos cabelos, no sentido testa-nuca, olhou por sobre os
óculos e largou a clássica pergunta: “Tu vai com que dinheiro
mesmo?”
Pronto, era esse o meu
maior medo: a falta de fundos. Eu enchi o peito e com a coragem única
dos loucos varridos, dei um tapinha nas costas dele, que ainda
segurava os papéis e me olhava de baixo pra cima, por entre os
óculos e então eu disse, sem falhas e com a entonação de um
canalha que está prestes a vender o Pão de Açúcar pra um turista:
“Ora, com o único que sempre usei até hoje, o bom e infalível
SEU!!!”
Eu não esperava, mas ele
deu uma gargalhada, daquelas que só se dá quando alguém escuta uma
coisa realmente engraçada. Depois dos 10 minutos rindo e segurando
os órgãos internos com as duas mãos sob a barriga, ele perguntou
se eu estava ficando esclerosado, pois devia ser sabedor da precária
situação financeira que ele se encontrava naquele momento. Mas eu
disse que a gente ia dar um jeito, apesar de não ter a mínima ideia
qual era a forma ou a cor desse jeito.
O
plano era primeiro dominar o idioma de Charles
Aznavour e só depois, aplicar pro
mestrado em si. Vi então um alívio no seu rosto. “Então
você vai estudar francês aqui na Aliança Francesa antes de ir”,
perguntou meu velho. Eu falei não, esse francês aí é diferente,
temos que estudar francês na própria universidade onde vamos
aplicar e por coincidência, essa faculdade fica também no Canadá.
Ele disse que podia desistir da ideia, pois não tinha a mais
remota condição disso acontecer, a não ser que eu o ajudasse a
assaltar uma agência de banco. Fomos dormir, e eu fiquei bastante
desapontado, mas entendia a sua situação.
Quando acordamos, ele
tinha mudado de ideia e disse que uma oportunidade dessas não pode
ser desperdiçada e assegurou-me que arranjaria a grana, de uma forma
ou de outra. O que fez esse homem mudar de idéia nunca ficarei
sabendo. Ele levou com ele. O meu trabalho seria fazer o levantamento
de todos os custos da viagem, desde o chiclete que ia mascar no avião
até o copo de água congelado que eu não ia conseguir tomar no
Canadá.
Nesse aspecto, Zumel
estava na minha frente. Tinha um Jeep Engesa bastante cobiçado pela
nata jipeira do Rio Grande do Norte e o colocou à venda, recebendo
boa grana pelo automóvel. Então saímos em busca do que
precisávamos pra obter o visto, papeis, cartas, passaporte e valores
de tudo. Chegamos perto do dia 22 de Dezembro com quase tudo
arranjado. Foi aí que veio o problema: o visto. Somente o visto. Um
adesivo ridículo, com sua foto e seus dados pessoais, colados no seu
passaporte, que já possui seus dados pessoais, mas que sem ele, você
é persona non-grata no país que você pretende ir, se este país
não possuir acordo com o seu país de origem que dispense o visto.
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