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Casa de Celso, onde ele me deixou pra ir pra fábrica. |
Se
dependesse de mim, teria ficado direto naquele maravilhoso lugar. Vi
o inverno pela primeira vez mostrar suas garras poderosas, mas vi
também pela primeira vez a primavera. Ultimas semanas de março em
Montréal era como uma respirada na superficie após passar cinco
minutos sem respirar debaixo d'água. O sorriso nos rostos das
pessoas, a felicidade no ar, gelo derretendo, parece que Montréal
acorda quando chega março. A hibernação e os rostos fechados do
inverno dão lugar à um clima maravilhoso, seis semanas depois da
marmota mostrar sua cara.
Ter as
estações do ano bem definidas dá a impressão de vivermos em 4
lugares diferentes sem sair do canto. Mas eu tinha que voltar ao
Brasil, terminar umas disciplinas que eu vinha fazendo por e-mail,
graças à boa vontade de alguns professores progressistas e por fim,
tinha que concluir minha monografia e apresentar, para poder pegar
meu diploma e voltar correndo pra Montréal pra poder aplicar pro
mestrado. Tudo tinha que ser muito sincronizado. E foi. Mais ou
menos.
Cheguei ao
Brasil no aeroporto de Guarulhos e após essa temporada em Montréal,
eu tive vontade de voltar do aeroporto mesmo. Só não o fiz pois
precisava desse diploma. O calor insuportável, a má educação das
pessoas, a má vontade dos atendentes das companhias aéreas, aquilo
foi me dando um desespero, parecia um pesadelo. Naquele ponto, eu
confirmei porque o Brasil é assim e o Canadá é do jeito dele. O
povo e o calor. Essa foi a resposta daquele momento.
Retornei à
UFRN, naquela época no setor 1, um calor infernal, mas um calor
infernal mesmo. A comparação com a Universidade de Montréal não
podia ser evitada. O uso de internet na Universidade em Montréal era
franco e abundante. Na UFRN era restrito. Muito restrito. Minha sorte
é que eu era bolsista do CNPQ da base de Miguel Anez e tinha um
computador na nossa sala, mas o aluno normal, penava.
Eu estudava
de manhã e de noite e saía de casa pra beber quase todo dia,
querendo me despedir daquilo que foi a minha vida inteira. Fui muito
ajudado por alguns professores, gravemente sacaneado por outros
safados que se diziam apoiadores do nosso projeto, mas no fim, entre
mortos e feridos, deu tudo certo, como sempre dá.
Tudo certo,
monografia apresentada, diploma carimbado, inscrição no CRA feita,
era hora de voltar ao Canadá. No dia 5 de setembro de 2000, olhei
pro meu quarto pela última vez, naquela casa da avenida Brigadeiro
Gomes Ribeiro, 1462, onde morei desde os 3 anos de idade até naquele
momento com 24 anos e sabia que não iria mais voltar ali. Mesmo não
tendo planos de ficar no Canadá, eu não pretendia mais morar
naquela casa. Queria ganhar o mundo. Fazer um doutorado em outro
lugar, quem sabe.
Meu pai, um
homem que pouco expressava seus sentimentos, sabia disso. Meu amigo
Flávio Teco foi me deixar no aeroporto, pois papai se recusou a ir.
Acho que para ele ia ser demais me ver indo. Ele estava deitado na
rede, fingindo dormir. Eu fui lá e falei: “Pai, estou indo”.
Ele apenas acenou com a mão, disse “boa viagem, filho”, e
se virou, cobrindo o rosto com o lençol.
E assim eu
fui, respeitei aquele momento dele, e saí com o nó na garganta.
Goose bumps, como se diz no Canadá. Dessa vez fui só. Zumel
já estava lá. Combinei com Celso, ele foi me pegar no aeroporto,
num Honda Civic coupé que ele tinha, preto. E já foi dizendo: “Já
quer ir trabalhar na fábrica, paraíba? Vamos direto! Tá
disposto?”. Eu disse que não queria, que tava morto, precisava
descansar. Precisava na verdade colocar a cabeça em sintonia com
aquilo tudo lá. Respirar um pouco. Eu sempre preciso de uns momentos
pra alinhar os pneus e afinar o motor.