Um episódio
dessas duas semanas finais marcou muito a minha trajetória em
Montréal. Era um domingo e tínhamos planejado de ir conhecer o Les
Bobards, um bar que tinha música brasileira tocando aos
domingos, quase sempre com o brasileiro Paulinho Ramos na voz e
violão. Ficava situado na famosa avenida St-Laurent.
Antes de
irmos, Natan nos intimou a participar de uma festa baiana que eles
consideram e prestigiam muito, o chamado Caruru. Natan estaria dando
esse caruru pra agradecer a alguma graça obtida, não sei do que se
tratava, mas disse que não poderíamos faltar e como tínhamos um
senso de gratidão com ele, fomos nessa missão, apesar de eu saber
que iria ficar o dia inteiro com fome.
Como Natan
tinha medo de Júlia, pediu a casa de um amigo emprestada para
realizar tal evento. O dono da casa era um sujeito chamado Pedro, que
tinha um apartamento ali no Platêau Mount-Royal, mas que não iria
estar em casa, por motivos de trabalho.
Chegando na
festa, eu e Zumel percebemos logo que o ambiente não era hetero. Uma
viadagem enorme e chega logo uma bicha descarada e gasguita chamada
Billy. Esse Billy era brasileiro mas parece que ra filho de
estrangeiro. Eu ficava sério olhando pros gestos tresloucados e
gritinhos do tal Billy, mas Zumel ficava olhando pra cara do sujeito
e gargalhando. Outra daquelas manias dele sem noção.
Porém, como
tudo na vida é um quebra-cabeças que vai se encaixando, mais tarde,
já pro fim da tarde, chega na festa um carioca e um peruano. Eles
carregavam duas caixas de 24 cervejas Budweiser e eu pensei, taí
dois caras gente boa.
Não tinham
aparência de viados, e começamos a conversar. Ficamos eu, Zumel, e
eles dois numa mesa, já cada um com uma Budweiser na mão. O carioca
era Celso Mirres e o peruano era Lúcio. Celso perguntou: “Nada
contra, mas vocês dois são viados?”. Eu respondi: “Viado é o
caralho, porra!”. Foi um alívio fantástico por parte de nós
quatro.
Então
avisamos que íamos ao Les Bobards e Lúcio nos ofereceu
carona, numa Van. Chegamos lá, praticamente só brasileiros na festa
e era incrível, pois nauela época não existiam muitos brasileiros
por lá. Tomamos todas, jogamos sinuca, foi uma farra ao tipo que eu
fazia em Natal. Nessaa noite, através do viado Billy, que foi pra lá
a pé, Zumel conheceu Danielle, que seria sua mulher por uns tempos e
que depois se mudou pra Natal e virou corretora de imóveis por lá.
O engraçado
foi o motivo que ela deu pra deixar o Canadá e ir morar no Brasil.
Certa vez ela foi visitar Natal e lá, a manicure foi fazer a unha
dela na residência onde ela estava. Ela achou aquilo tão incrível,
que resolveu se mudar pra Natal, para que tivesse esse e outros
pequenos luxos que não existiam no Canadá.
Na semana
seguinte, fui tomar uma cerveja com Celso na casa dele e toquei a
introdução de “La Bamba” em uma guitarra que ele tinha em casa.
Ele gostou tanto que pediu para que eu repetisse umas 10 vezes. Lúcio
novamente apareceu por lá e ficamos tomando várias.
E nesse
interim, Celso me convidou a passar um tempo na sua casa até que me
organizasse quando voltasse à Montreal em Setembro. E ainda me
garantiu um emprego na “fábrica”. Mas se eu tivesse me recusado
à ir na festa do Natan, nada disso teria acontecido e minha volta
teria sido bem mais difícil. Incrível como tudo tem um propósito.
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