Já estava
frio e abrimos o gás, correndo, não sei porque. Cheguei lá em cima
da ladeira morto, bufando, e vimos uma loja do KFC. Entramos e
pedimos um combo do Super Croque, como se dizia no Québec. Ninguém
parava de rir, bêbado é foda. Só fomos ter notícias de Celso no
outro dia.
A rotina
voltou ao normal, muito trabalho, recebi a grande notícia da
aprovação do mestrado na prestigiosa HEC Montréal, chegou o Natal
de 2000 e deu aquele banzo. Fui pra casa de Morin e Lu. Cana vai,
cana vem, começamos uma discussão, eu e Rosel, sobre direita e
esquerda. Ele falando sobre a esquerda, colocou o dedo na minha cara,
em riste. Eu avisei: “Amigo, fale o que você quiser, mas não
coloque o dedo na minha cara!”. Ele foi falando empolgado, e
outra vez colocou o dedo na minha cara, gritando. Avisei de novo,
amigo, fale mas não bote o dedo na minha cara. A terceira vez você
vai se arrepender. Ele aprendeu ali naquele momento como as coisas
funcionavam comigo. Ele colocou o dedo pela terceira vez na minha
cara, e antes dele poder ter qualquer reação, eu dei uma mordida
tão forte no dedo dele, que ele queria tirar o dedo da minha boca e
não conseguia.
O sangue
escorria e eu não soltava. Todo mundo entrou em pânico, querendo
que eu soltasse, me empurrando, puxando e eu agarrado. Mas o
engraçado foi que em vez dele ficar puto, teve um acesso de riso.
Pulava de um lado pro outro, dizendo com o sotaque baiano, “Lá
ele, o potiguar é pitbull, o potiguar é pitbull, qual o quê?”.
Voltamos a
beber novamente quando fizeram um curativo, mas por precaução,
pediram pra gente evitar o assunto política. Todos estavam
assustados demais. Pegamos um ônibus pra casa, bebemos mais umas
cervejas que tínhamos lá e fomos direto pro Chabanel pro
trabalho. O frio era tão intenso naquele primeiro dia de 2001 que
usávamos máscaras de ski para proteger o rosto, senão queimava.
Era terrível, com neve acumulada da noite anterior que batia na
canela. Do metrô pro prédio, eu pensei que fosse morrer. Fizemos o
trabalho e só assim que voltamos pra casa pra dormir.
Logo no
começo de janeiro começaram as aulas do mestrado. Se eu pensava que
estava preparado, tive a certeza que não estava. O francês falado
academicamente era muito mais puxado do que o falado nas ruas e nas
escolas de idioma. Me vi doido. Nesse tempo, eu tinha somente o
trabalho de Luiz, do Ministério do Trabalho do Québec, que começava
as 5 da tarde e ia até umas 10 da noite, às vezes um pouco mais.
Chegava de lá, ia estudar ou fazer algum trabalho (que toda semana
tinha um pra cada matéria) até umas 2 ou 3 da madrugada, pra
acordar cedo no outro dia pra começar as aulas às 9 da manhã. Mas
ainda tinha onibus, metrô e parte à pé, então tinha que sair de
casa no máximo as 8 da manhã.
No primeiro
trimestre, fiz logo uma disciplina com Alain Joly e como Miguel Anez
fazia pós doutorado, aproveitou e fez essa disciplina comigo. Era
gestão comparada e estudava formas de gestão em diferentes países.
A universidade era linda, desde a arquitetura até a biblioteca,
passando pelas salas de aula, auditórios, lanchonete, corredores,
escritórios dos professores. Tudo era incrível, um tempo de muita
esperança e alegria, apesar de eu achar que aquele clube não era
pra mim.
Acabou o
trimestre de inverno, como eles chamam e o trimestre de verão era
opcional. Como eu tinha que ter tempo pra dormir um pouco e tempo pra
juntar o dinheiro da mensalidade, eu decidi voltar somente no
trimestre de outono. Trabalhei em Luiz até o meio do ano, quando ele
alegou que queriam minha permissão de trabalho e eu não tinha e
tive que sair. Aproveitei pra ir no Brasil em agosto de 2001, pois
meu pai estava com dinheiro da aposentadoria e resolveu me presentear
com uma passagem.
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