“When you got nothing, you got nothing to
lose”
Bob Dyan
Outro dia eu estava me lembrando de uma frase de Antonio Carlos Jobim
que dizia que morar no Brasil era bom mas era uma merda e morar no exterior era
uma merda mas era bom. Ele vivia dividido entre New York City e o Rio de
Janeiro, evidentemente com uma enorme estrutura nos dois lugares. Hoje vivo
situação similar, dividido entre o Canadá e o Brasil.
Conseguir isso, diferente de Tom, faz com que eu tenha que me desdobrar
em dois, aguçando a observação sobre o que é bom e o que é ruim nos dois
lugares. Cheguei no Canadá no dia 31 de dezembro de 1999, então com 24 anos de
idade, cheio de sonhos e querendo enfrentar qualquer coisa. Nessa época, só
conseguia enxergar as coisas boas do Canadá e as coisas ruins do Brasil. Hoje
sei que escolhemos o que queremos ver. Na verdade, vemos o que nos convém. A
percepção se adapta aos seus anseios e não o contrário.
Nesses últimos 15 anos, passei a frequentar muito pouco o Brasil, e
mesmo nessas poucas vezes que ia, via tudo sob a ótica de um turista, sem
precisar de nenhum serviço do país, a não ser dos garçons e indivíduos
envolvidos no turismo de maneira geral. O mesmo ocorre quando alguém pensa que
conhece um local apenas indo visitar seus restaurantes e museus. Na verdade,
você que pensa assim, conhece apenas os restaurantes e os museus. Você só
conhece uma localidade se precisar ganhar dinheiro ali, ou investir.
Tendo que fazer dinheiro nos dois países, me pego às vezes sendo
inocente, tal qual uma criança descobrindo que o mundo não é feito de fadas. No
Canadá, abrimos uma empresa simples, sem ser corporação, na mesma hora, pela
Internet, ao custo de 70 dólares. Caso queira uma corporação, vai te custar 400
dólares e também estará aberta assim que o seu contador te entregar o livro e as
cotas, ou seja, se você abrir através dele, já sai de lá com tudo pronto. Nos
dois casos, já pode ir ao banco, abrir uma conta pra poder receber o dinheiro
dos clientes e ser feliz. No caso do contador, ele cobra 100 dólares pelo
serviço. O salário mínimo aqui fica na ordem dos 2 mil dólares.
No
Brasil, precisei abrir uma empresa simples e deixei a papelada pronta no dia 2
de março. Hoje, dia 27 de março, a empresa ainda não está aberta, mas tive que
pagar 567 reais referentes à abertura, somado com 400 reais dos honorários do
contador. O salário mínimo é da ordem dos 700 reais. Sem falar que eu gasto no
Canadá, com minha empresa incorporada, 400 dólares anuais com serviços de
contabilidade. No Brasil, o mesmo serviço pra uma empresa simples é de um
salário mínimo por mês.
Outra aberração da natureza são os chamados cartórios. Não é a
corrupção, não é o PT, não é nada que atrasa o avanço do país. O câncer é o tal
do cartório. Tem cartório no interior fazendo o usuário esperar até 45 dias
corridos pra entregar uma Certidão de Inteiro Teor e um Registro de Contrato.
Somado com 30 dias corridos para entregar uma escritura de um terreno. Somente
com esse tempo de gestação, muita gente vai à bancarrota. Em um mundo em que a
velocidade de tudo é supersônica, essa palhaçada faz parecer que vivemos no
Brasil Colonial.
Mas, por outro lado, não existe em nenhum lugar do mundo um restaurante
como o Camarões. Nem em New York City, nem em Toronto, San Francisco, Los
Angeles, Chicago, Miami ou Pittsburgh. Se engana quem acha que somente no
exterior existem coisas boas. Negativo. Temos também em terras tupiniquins.
Dizem que a pizza de São Paulo é a melhor do mundo. Nos esforçamos e temos
excelência em muita coisa, apenas as prioridades são inversas.
Fabiano Holanda, Oakville, 27 de março de
2015.