“For long you live and high you fly, and
smiles you'll give and tears you'll cry, and all you touch and all you see, Is
all your life will ever be”
Pink Floyd
Beirando os quarentinha, descobri que, ao
invés de deixar de gostar das coisas que sempre gostei, passei a gostar das
mesmas coisas de maneira diferente. Deve ser uma ação natural do cérebro que
diz: “Olha aí rapaz, teu tempo tá
passando, se liga!”
Antigamente, montado nos meus vinte e poucos
anos, eu pegava um disco de algum artista que gosto e escutava todo, e se fosse
o caso, repetia uma, duas ou três vezes, tocando o mesmo disco. Hoje, escolho
muito bem escolhido que canções irei escutar. Se bem que o formato chamado
disco hoje em dia é um conceito bem obsoleto, um tanto quanto jurássico. Com a
chegada do MP3, a rapaziada só pega mesmo as músicas que gosta, fato este que
irritou profundamente o Pink Floyd, que faziam álbuns conceituais, que
pretendiam mesmo que fosse escutado na mesma ordem que estava lá.
Mas voltando ao que falava, me pego pensando
que dentre alguns anos, irei somente escutar alguns trechos ou frases das
canções que mais gosto. O mesmo ocorre com livros. Na arrogância juvenil,
achava que tinha que ler o livro todo, mesmo aquelas partes que são enchimento
de linguiça, não importava. Um professor me indicou certa feita A era dos extremos, de Eric Hobsbawm,
como forma de conhecer o século XX.
Logo no início, percebi se tratar de uma obra
esquerdista, mas a curiosidade de ver até onde ia aquela visão deturpada,
aliado com a boçalidade de querer ler tudo, fez com que eu terminasse aquela
obra enfadonha. Depois me deparei com Modern
Times, de Paul Johnson, aí fui até o fim, com deleite, pausando pra solver
aos poucos, como eu fazia com um chocolate Talento,
comendo cada quadradinho por vez, deixando derreter na boca. Já A Lanterna na Popa, de Roberto Campos,
esse eu gastei o tempo com ostentação, um verdadeiro perdulário das horas,
lendo, relendo e anotando.
Na verdade, procuro descobrir se é a idade e
a proximidade com minha tumba que trouxeram esse comportamento mais seletivo ou
se foi a descoberta que ninguém pode ser interessante o tempo todo. Assistir
aos vídeo tapes da seleção de 70 comprova isso. Aparece cada jogada que você
olha pro outro lado com vergonha alheia. No entanto, entraram pra historia como
um dos maiores times de todos os tempos.
Hoje aprendi a fazer uma leitura cirúrgica
das obras, me permito utilizar uma atitude maravilhosa chamada Critério! Assim
como seleciono nos discos e livros, não me aprofundo mais nas conversas, nos
emails, nos textos, simplesmente não tenho mais tempo pra isso. Perguntaram a
Caymmi certa feita porque ele não compunha mais, e ele respondeu: “emburreci”,
pra não ter que se aprofundar na resposta. Eu procuro justamente esse processo
de emburrecimento voluntário. É muito chato você se aprofundar, assim como é
chato as pessoas que gostam de se aprofundar, e as pessoas que escutam os
discos todos e leem os livros por completo.
O bom mesmo é ter personalidade o suficiente
pra sentar descontraído, tomar uma gelada, comer algo que goste, rir, falar
sobre amenidades, pois duas coisas que a idade desenvolvida me permitiu
descobrir foram: 1) que somos um defunto adiado e 2) que ninguém convence
ninguém dos seus argumentos.
Fabiano Holanda, Oakville, 13 de março de 2015.
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