Acredito que
setenta por cento do que li nos últimos 20 anos foram biografias.
Das mais variadas, gente de esporte, música, gestão, medicina,
filosofia e por aí vai. Na minha vida inteira, nunca fui leitor de
ficção. A vida real me fascina mais. Como dizia Belchior, a minha
alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é a experiência
com coisas reais.
O sujeito
mais esperto irá perguntar: “E você acredita mesmo que existe
realidade nessas biografias?”. Bem, concordo que a maioria
delas é repintada com uma tinta mais bonita, aparadas as histórias
mais escabrosas, consertados erros e enaltecidas muitas vezes
decisões que foram feitas por sorte e elegem o biografado à guru e
visionário, quando muitas vezes ele somente estava na hora certa e
no lugar certo. Mas, mesmo assim, elas se aproximam muito mais da
realidade do que uma ficção, que pretende imitar a realidade com
suas personagens e nomes que se parecidos com a realidade, são mera
coincidência.
Isso é uma
discussão que não estou interessado em entrar no momento, o fato é
que eu prefiro as biografias e se eu fosse contar minha história, o
faria usando da mais pura sinceridade, mostrando onde errei e onde
acertei, para que o leitor pudesse aprender com minha experiência de
vida. O espertão irá falar também: “Quem és tu pra fazer uma
biografia?”. Eu sou uma pessoa e acho que cada pessoa tem uma
história de vida interessante, caso tenha aprendido com a vida. Um
idiota pode até ter tido uma história interessante, mas nem ele
sabe disso.
No curso de
mestrado, já no último trimestre, fiz uma disciplina com o
professor francês Alain Chanlat, chamada Ciências Humanas. Nessa
disciplina, digna de um verdadeiro mestre, ele traçava um histórico
de toda a existência humana, englobando os tópicos a seguir, um pra
cada aula: genética, o cérebro, os reflexos condicionados e
nervosos, a etimologia, a linguagem, o desenvolvimento
neuropsicológico do bebê, a inteligencia, a afetividade, a
socialização e as relações interpessoais.
Após cada
aula, tínhamos que levar uma resenha sobre o que você aprendeu,
antes de começar a aula seguinte. No final do trimestre, tínhamos
que fazer um trabalho, com um fio condutor de todas essas aulas, além
das nossas impressões pessoais. Passei uma semana fazendo este
bendito trabalho, nas horas que dava, dormindo duas horas por dia,
pois trabalhava para poder pagar meus estudos e viver. Li, reli, li
mais uma vez, refiz umas cinquenta vezes. Pediu cerca de 15 páginas.
Chegado o dia, entreguei. Mais uma semana para o resultado. O
resultado seria dado em uma entrevista com ele, individualmente, no
escritório dele, na universidade.
Logo que
entrei, ele estava sentado, de paletó e sua inconfundível barba
branca, somente com pelos no queixo, sem nada no bigode. Deu boa
tarde e me mandou sentar. Fabiano, ele disse, está aqui o seu
trabalho. Nada brilhante, nada sem nexo, trata-se de um trabalho
mediano, que já recebi mil deles. A sua nota será um “A minus”,
você discorda dela? Quis saber o mestre Chanlat. Eu, de certa forma
aliviado, disse que não, que concordava com essa nota. Ele disse
então estamos acertados, rasgou o trabalho e colocou na lata de
lixo.
Ele disse
que queria escutar minha história de vida. O que tinha feito eu sair
do meu país e ir fazer mestrado no Canadá, que era isso que o
interessava. O assunto do trabalho ele já sabia de cor e salteado.
Que eu contasse tudo, ele teria uma hora pra ouvir. Ele escutava de
olhos fechados, eu pensava que estava dormindo. Falei por muito tempo
sobre o que pensava, sobre o que me fez ir pra lá, como fazia pra
pagar a universidade, apartamento, comida, como eram meus pais, minha
infância, família, tudo. Quando parei ele fez perguntas e
obervações interessantes sobre o que tinha ouvido naquela
narrativa, em que eu relatava a vida de um nordestino falando em
francês.
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