Wednesday, October 12, 2016

Bolsa sem valores – 8

Deixamos os passaportes no hotel e partimos pra farra. Por aí dá para se ter uma idéia de como éramos prudentes. O hotel era situado a poucos metros do prédio da Bolsa de Valores. Só que não sabíamos disso. Sabíamos que ali não passava carro e tinha vários bares. Paramos no primeiro, onde o dono era um chinês. Muito ignorante e bruto, por sinal.

Bebemos pra valer e depois enjoamos do ambiente, pois só tinha vagabundo e bêbado naquela pocilga. Resolvemos dar um upgrade no ambiente e saímos de lá em busca de outro mais alegre. Eis que tinha um bar, que era mesmo na esquina com a Bolsa de Valores. Lá só tinha o pessoal engravatado, com suas namoradas e amigas também bem arrumadas. Falei pra Zuma que aquele era um ambiente melhor pra sujeitos como nós, que estávamos indo pro Canadá. Comédia.

Pegamos uma mesa que esvaziou, bem perto da calçada. Eu já estava meio embriagado e Zumel completamente. Só fazia rir. Eis que vem um caminhão de lixo e não tinha como ele passar no espaço que desejava, somente se afastássemos a nossa mesa. Os bichões da Bolsa ao ouvirem o pedido do motorista do caminhão de lixo, mandaram o motorista dar a volta, pois ninguém ia afastar porra de mesa nenhuma. O motorista ameaçando botar o caminhão por cima e eu e Zumel no meio do tumulto.

Eu preferi lidar com os bichões da Bolsa, em vez de lidar com o peso do caminhão e mandei Zumel sair daquela merda de mesa. Fui lá pra perto dos bichões. E eles gritando pra Zumel não sair. Eu já não dizia mais nada, queria mais que ele se fudesse pra deixar de ser burro. Quando ele tomou um gole e se levantou, o caminhão passou por cima da mesa.

Diante dessa adrenalina toda, Zumel ajeitou a mesa e tomamos mais algumas e fomos embora, ainda escutando os cochichos dos bichões da bolsa, dizendo que nós éramos frouxos, éramos pra ter enfrentado o caminhão. Bando de filho da puta. Eles mesmo não chegaram nem a 3 metros de distância do caminhão, mas davam corda pra que ficássemos. Acho que queriam ver a gente morrendo, pra completar algum ritual macabro de comemoração de alguma alta do índice Bovespa. Vai saber.

Voltamos pro hotel com uma fome monstruosa e com o catálogo telefônico de São Paulo nas mãos, resolvi pedir uma pizza delivery. Acostumado com Natal, olhei somente os anúncios grandes e liguei. Todas se recusaram a entregar naquele endereço, alegando ser muito longe. Ora, se o cara ligasse pra uma pizzaria em Ponta Negra e mandasse entregar em Morro Branco, os caras iriam. E isso pra mim era longe pra caramba. Mas lá em São Paulo era diferente. Liguei pra umas 30 e nada. Já comecei a ligar de sacanagem, pra irritar os caras. No fim, fui dormir com fome. Puto da vida. Zumel então pergunta se eu acabei de usar o telefone. Ao receber minha afirmativa, pede pra usar o mesmo e vai pra dentro do banheiro com o aparelho. Ele entrou na banheira com o telefone e eu fui dormir escutando os risinhos de rapariga ruim e declarações de amor.

Quando acordamos, tomamos café da manhã e fomos pagar a conta pra poder ir pro aeroporto. Como não havíamos tocado naquele frigobar, esperei somente a formalidade da menina de fechar o quarto, que já estava pago antecipadamente e pronto. Eis que vem a conta, 150 reais. Quando fui olhar, era o telefonema que o puto tinha dado quando eu tinha ido dormir. Tratava-se de uma rapariga que ele tinha e que ficou de viadagem noite adentro, numa ligação interurbana.

E pra completar a cara de pau, ainda queria que eu rachasse a despesa com ele. Não tinha cabimento, quase o preço de duas diárias do hotel somente de telefone. Fui embora procurar um taxista, que cobrou 50 reais pra nos levar até o aeroporto, flat rate. O bicho ficou puto, não falou comigo durante o trajeto.

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