Wednesday, October 19, 2016

Bug do milênio – 9

Era só o que me faltava, eu virar patrocinador de sexo por telefone. Liso e pagão de munheca via Embratel. Logo eu, que vendia o almoço pra poder jantar. Ele que pagasse com o dinheiro do Engesa dele, foi o que pensei.

Quando chegamos no aeroporto de Guarulhos, fomos direto fazer o check-in. Tudo era novo. Éramos totalmente ingênuos quanto a tudo o que surgia à nossa frente e com aquele sentimento de que qualquer coisa poderia atrapalhar nossos audaciosos planos.

Foi aí que surgiu uma funcionária da Continental Airlines. Ela fez mais perguntas do que o oficial canadense que nos recebeu na fronteira, horas mais tarde. Ela queria saber de tudo. Depois de fazer todas as perguntas de praxe, ela então perguntou o que eu iria fazer no Canadá. Ao dizer que iria estudar, ela se queimou e disse: “É, enquanto vocês nordestinos estudam, o povo aqui de São Paulo trabalha pra sustentar vocês”.

Já pensou? Como eu pensava que ela poderia me criar problemas, numa inocência cavalar, engoli no seco e apenas respondi: “Pois é, somos sortudos demais, não é?”. Hoje em dia eu não encontro uma piadista dessas nem por cem e uma cocada. No mínimo iria pedir pra ela adiantar minha parte, que eu não havia recebido nenhum cheque de São Paulo.

Era dia 31 de Dezembro de 1999, e iríamos sair de São Paulo às 11 da manhã, fazer uma escala em Newark, estado de New Jersey, onde ficava uma das sedes da Continental Airlines (que nem existe mais) e pegar um outro avião pra Montréal, chegando lá por volta das 10 horas da noite. Duas horas antes da virada pro ano de 2000, que eu ouvia desde menino dizer que era quando o mundo iria se acabar. Eu dizia que o mundo ia se acabar, mas meu pai dizia que na época dele, diziam que quando chegasse no ano de 2000, todos os negros iriam virar macacos. Imagine só o tamanho do processo que isso daria hoje em dia?

Pois bem, pegamos um DC-10 da Continental Airlines com 13 pessoas dentro, incluindo a tripulação. Era assustador e confortável ao mesmo tempo. Viajar quase oito horas do trajeto São Paulo-Newark com o avião quase fantasma. Passamos por cima da floresta Amazônica de dia e pude atestar a sua grandiosidade. Muita árvore e muita água. Pra descansar, me deitava em três cadeiras. Quase um avião particular. Se não fossem os outros 4 passageiros, o avião era só nosso. Também pensava que se Deus quisesse derrubar um avião, com certeza ele derrubaria aquele, pois só mataria 13 cabeças. Triste constatação.

Foi quando um membro da tripulação perguntou se queríamos vinho. Respondi que sim e ele trouxe pra cada um, uma garrafa de 250ml de um vinho tinto californiano que até hoje não sei o nome. Bebemos em menos de 5 minutos e pedi ao mesmo sujeito mais uma garrafa. Ele trouxe duas pra mim e duas pra Zumel. Acabamos e pedimos mais. Ele trouxe dessa vez quatro em cada mão e disse: “quando acabarem, vão ali naquela portinha e se sirvam a vontade que eu vou dormir”. Que maravilha. A excitação era enorme. Nunca haviamos ido por aquelas paragens.

Os “sortudos” estudantes nordestinos estavam luxando naquele avião que a funcionária paulistana fez piada. Ninguém sabia ainda da epopeia que iriamos enfrentar dentro de algumas horas. O choque cultural foi mesmo que um direto no queixo de cada um.



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