Era só o que me faltava,
eu virar patrocinador de sexo por telefone. Liso e pagão de munheca
via Embratel. Logo eu, que vendia o almoço pra poder jantar. Ele que
pagasse com o dinheiro do Engesa dele, foi o que pensei.
Quando chegamos no
aeroporto de Guarulhos, fomos direto fazer o check-in. Tudo era novo.
Éramos totalmente ingênuos quanto a tudo o que surgia à nossa
frente e com aquele sentimento de que qualquer coisa poderia
atrapalhar nossos audaciosos planos.
Foi aí que surgiu uma
funcionária da Continental Airlines. Ela fez mais perguntas do que o
oficial canadense que nos recebeu na fronteira, horas mais tarde. Ela
queria saber de tudo. Depois de fazer todas as perguntas de praxe,
ela então perguntou o que eu iria fazer no Canadá. Ao dizer que
iria estudar, ela se queimou e disse: “É, enquanto vocês
nordestinos estudam, o povo aqui de São Paulo trabalha pra sustentar
vocês”.
Já pensou? Como eu
pensava que ela poderia me criar problemas, numa inocência cavalar,
engoli no seco e apenas respondi: “Pois é, somos sortudos
demais, não é?”. Hoje em dia eu não encontro uma piadista
dessas nem por cem e uma cocada. No mínimo iria pedir pra ela
adiantar minha parte, que eu não havia recebido nenhum cheque de São
Paulo.
Era dia 31 de Dezembro de
1999, e iríamos sair de São Paulo às 11 da manhã, fazer uma
escala em Newark, estado de New Jersey, onde ficava uma das sedes da
Continental Airlines (que nem existe mais) e pegar um outro avião
pra Montréal, chegando lá por volta das 10 horas da noite. Duas
horas antes da virada pro ano de 2000, que eu ouvia desde menino
dizer que era quando o mundo iria se acabar. Eu dizia que o mundo ia
se acabar, mas meu pai dizia que na época dele, diziam que quando
chegasse no ano de 2000, todos os negros iriam virar macacos. Imagine
só o tamanho do processo que isso daria hoje em dia?
Pois bem, pegamos um
DC-10 da Continental Airlines com 13 pessoas dentro, incluindo a
tripulação. Era assustador e confortável ao mesmo tempo. Viajar
quase oito horas do trajeto São Paulo-Newark com o avião quase
fantasma. Passamos por cima da floresta Amazônica de dia e pude
atestar a sua grandiosidade. Muita árvore e muita água. Pra
descansar, me deitava em três cadeiras. Quase um avião particular.
Se não fossem os outros 4 passageiros, o avião era só nosso.
Também pensava que se Deus quisesse derrubar um avião, com certeza
ele derrubaria aquele, pois só mataria 13 cabeças. Triste
constatação.
Foi quando um membro da
tripulação perguntou se queríamos vinho. Respondi que sim e ele
trouxe pra cada um, uma garrafa de 250ml de um vinho tinto
californiano que até hoje não sei o nome. Bebemos em menos de 5
minutos e pedi ao mesmo sujeito mais uma garrafa. Ele trouxe duas pra
mim e duas pra Zumel. Acabamos e pedimos mais. Ele trouxe dessa vez
quatro em cada mão e disse: “quando acabarem, vão ali naquela
portinha e se sirvam a vontade que eu vou dormir”. Que maravilha. A
excitação era enorme. Nunca haviamos ido por aquelas paragens.
Os “sortudos”
estudantes nordestinos estavam luxando naquele avião que a
funcionária paulistana fez piada. Ninguém sabia ainda da epopeia
que iriamos enfrentar dentro de algumas horas. O choque cultural foi
mesmo que um direto no queixo de cada um.
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