Wednesday, November 23, 2016

Achando lugar – 13

Já íamos nos despedindo, agradecendo ao Claude pela grande força, e também pela gratuidade do esforço, eis que num momento cinematográfico, Zumel se vira pra ele e diz:
  • E os nossos 100 que já pagamos, ele vai nos devolver né?”
Rapaz, o Claude nem respondeu, fechou a porta e deu um bom dia. Ligamos pra Natan e o intimamos de ir também, pra fazer número, uma vez que o filipino andava com mais 4, seriam 5 contra 3. Natan concordou, mas foi se tremendo todo. Eu combinei com Zumel, se der merda, a gente joga alguma coisa em cima desses putos e corre o máximo que puder até a casa de Natan.

Natan berrou logo, “Lá em casa não, lá em casa não, vão pro Metrô, se Júlia ficar sabendo, ela me mataaaaaaa…”. Canalha.

Mas uma vez chegando lá, o filipino tomou a chave das minhas mãos, e já foi mostrar pra outro inquilino. Nem falou nada. Ou seja, era tudo jogo de cena. O tal do se colar, colou. Bandidão.

Aparecida foi de grande valia, assim como Natan e Ieda nesse nosso começo em Montréal. Foi através de Aparecida que conhecemos o Padre Pierre Labine. Ele também era aluno de português de Aparecida. E por coincidência, era o padre do Oratório St-Joseph, aquele que tinha me maravilhado na chegada em Montréal.

O padre Pierre tinha uma casa em que alugava quartos por 300 dólares por mês, incluindo ai alimentação de boa qualidade. Pela maior parte dos 3 meses que ficamos por lá, só moravam eu, Zumel, o padre Pierre e o irmão Michel. E em quartos individuais. No final, foi que chegou uns africanos, mas aí já dominávamos o ambiente.

Isso foi uma bênção em todos os sentidos. O padre nos ajudou e muito. Inclusive nos levou pra passear em Ottawa e Cornwall e nos hospedamos numa fazenda da Igreja num feriado prolongado. Ali eu conheci de maneira direta o inverno canadense.

Saindo da casa, um frio seco e cortante, neve pra todos os lados, afinal lá não se passava o Snow Plower. Dentro da casa, uma lareira queimando a madeira da região, gerando um cheiro característico que onde eu estiver, eu ainda lembrarei daquele cheiro, mesmo com 100 anos de idade.

Abrimos um bom vinho, sentamos próximo a janela de vidro grande, apreciando a paisagem branca, aquecidos pela lareira natural. Se tivesse uma paz maior do que aquela, eu nunca tinha vivido. Parecia que ali as almas descansavam de verdade. Além de tudo isso, teve a experiencia de viajar pela primeira vez em rodovias cobertas de neve. Também uma outra experiencia fantástica. O padre gostava somente de música clássica. Deslizávamos na branca areia, ao som de Vivaldi, Bethoven, Mozart, Bach.

O padre Pierre também nos dava carona pra Université de Montréal todas as manhãs, ali na Avenida Decelles, uma vez que ele ia pro Oratório de toda forma. A casa onde morávamos era situada ali naquele região entre as estacões de metrô De Castelnau e Jean-Talon. Era na rua Faillon, esquina com a St-Denis. A noite tinha um carteado, eu e Zuma contra padre Pierre e Irmão Michel. No meio de uma tossida, Zuma dizia passa um 8 de copas. Os adversários iam à loucura, as vezes abandonavam o jogo. Não entendiam, mas achavam que estávamos combinando. E estávamos.

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