Foi então que, perto da
casa de Natan (esse era o apelido dele), apareceu um apartamento
vago, 4 et demi, como se diz em Montréal, e lá fomos ver. O dono
era um mafioso filipino, que só andava com uns 4 seguranças. Depois
de vermos o apartamento, e constatarmos que o bicho era todo fudido,
resolvemos alugar aquela joça. Demos 100 dólares de depósito e
Natan foi o fiador do aluguel. Resolvemos aceitar por pura falta de
opção. A japonesa iria voltar pro apartamento da Décarie e não
tínhamos como pagar hotel. Mas...
Saindo de lá, compramos
uma cerveja e fomos beber na casa de Natan. Não sei porque, me deu
um negócio, uns arrepios premonitórios e resolvi não ir mais pra
aquele lugar. Estava com um mal presságio. Como sempre confiei nos
meus instintos (ou quando não confiei me dei mal), me levantei do
sofá e disse em alto e bom som, de supetão: “Não vou morar
ali naquele apartamento”.
“O
que? Como?”,
foram os gritos de Zuma e Natan. “Não
pode!”,
berrou Natan. “Eu
fui o fiador, ele vai vir atrás de mim, vai ficar ligando, oh meu
Deus, porque você fez isso comigo?”.
Como se tivesse em transe, confirmei, naquela merda daquele
apartamento eu não entraria nem a pau.
Eu estar falando aquilo
era uma coisa tão surpreendente pra mim quanto era para os dois. Não
sei de onde, não sei porque, mas eu estava decidido a não descansar
meus ossos naquele ambiente.
Liguei logo pro velho
Jajá a cobrar via Embratel e expliquei o meu problema. Ele sem
entender nada, disse que eu fizesse o que era melhor. E ficou uns
dólares mais leve somente com essa frase. Zumel só fazia rir do
desespero do baiano, nem ligava pro resultado da história,
acanalhado que sempre foi.
Então o baiano Natan, em
meio a pinotes histéricos, ligou pra uma professora de português da
UQAM chamada Aparecida, uma mineira que morava em Montréal desde a
sua fundação.
Ele queria conselhos.
Isso era Natan ao telefone, ipsis letteris:
-
“Sim mulher… Eles assinaram, mulher... Foi... E eu fui o
fiador... Sim... Era um quatre et demi… Muito bonzinho… Foi... Aí
o menorzinho (nota: ele estava se
referindo a mim) implicou que não quer
ir mais, mulher... Não sei porque ele assinou... Mas agora não quer
ir mais... Ai meu Deussssss! Júlia vai me matar quando ficar sabendo
disso…”
Nota do autor: não
confundir essa Júlia do parágrafo acima, que é estudante de
mestrado com a Júlia da outra página, que era promotora de eventos.
São duas pessoas distintas.
Mas voltando ao papo de
Natan ao telefone. Cara, pensei em mandar aquele bicho se lascar. Mas
ao mesmo tempo, ele era o nosso único contato com a realidade.
Aparecida então lembrou que tinha um aluno dela do curso de
português que era defensor público e disse que fossemos lá ter com
o indivíduo na manhã seguinte que ele iria nos ajudar. Em menos de
uma semana no Canadá já estávamos com problemas jurídicos.
O nome do defensor
público era Claude e no dia seguinte ele nos recebeu. Contamos tudo
a ele e ele pediu o telefone do sujeito. Ligou e foi uma discussão
braba, até que o Claude o ameaçou, dizendo saber de coisas dele e
mandou deixar a gente livre dessa. Então o filipino marcou um
encontro para que nós pudéssemos devolver as chaves do imóvel.
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