Um belo dia,
estava eu em casa e Luciano bate na porta. Disse que estava
retornando ao Brasil. Eu não entendi nada. Somente depois de um mês
é que fiquei sabendo por terceiros que ele estava casando e com
Lucianna grávida.
O ano de
2002 entrou e eu estava mais acomodado no mestrado e continuando
trabalhando com Miguel e Olga na Soleil Net. Em setembro, minha irmã
chegou no Canadá e me mudei pra casa de Morin e Lu, no segundo
andar, da rua Ethel, na cidade de Verdun. Comecei a colocá-la em
determinados trabalhos com Olga também e assim ela foi ficando capaz
de pagar as próprias contas e pra sanidade mental dela e minha,
resolveu se mudar e foi morar na casa do lado com Tiago e Flávia. A
casa também era de Morin e eles moravam no andar de baixo.
No andar de
cima moravam meus amigos Otávio e Mônica, com sua filhinha Maíra,
então com 4 anos de idade. Otávio, professor da Univerdade Federal
do Pará, fazia ali um curso de doutorado na Universidade UQAM. Foi
meu companheiro de cachaça e de música todos os finais de semana. E
Maíra era meu xodó, coloquei-a pra andar de bicicleta e carregava-a
pra todos os lados. Ela estudava numa escola em francês, perto da
Igreja de Verdun.
O trio
Marcelo, Augusto e Maurício foram embora pra Flórida, pra onde
tinha uma prima de Augusto por lá. 2003 chegou e nada mudou até
chegar março e eu, como concluinte do mestrado, tinha direito de
fazer estágio em alguma empresa. Foi aí que ocorreu um problema de
entendimento.
Eu havia
aplicado pra trabalhar numa grande empresa de consultoria chamada
Mckinsey. Mas também tinha aplicado pra trabalhar em mais de
duzentas empresas, inclusive uma gigante do setor de logística de
medicamentos chamada McKesson. Só que a primeira era pra uma posiçao
de consultoria, a segunda era pra uma posição mais baixa.
Recebi um
telefonema da empresa e o cara falou McKesson, mas eu entendi
Mckinsey. Pensei porra, fui chamado pra McKinsey, esse mestrado é
forte mesmo. Ele me deu o endereço onde eu deveria me apresentar.
Comprei roupa nova, sapato, e fui pro endereço fornecido.
Chegando lá,
vi um grande galpão. Uma senhora na recepção perguntou meu nome e
já tinha um crachá. Pensei, porra, que legal. Mandou eu seguir por
um corredor, onde fui parado por um sujeito com um jaleco. Onde
estão suas botas de segurança?, perguntou o sujeito. Que
botas?, perguntei eu. Ele disse: “Como você quer trabalhar
numa fábrica sem botas de segurança?”. Fábrica?
Pensei eu. Do que esse cara tá falando?
Ele então
me entregou um negócio duro pra calçar sobre os sapatos e pediu pra
eu seguí-lo, dizendo, ríspido, compre botas pra trazer amanhã. Foi
quando eu fui andando e vendo o nome nas paredes Mckesson e não
McKinsey. E eu todo arrumado. Mas não desisti, fui até o fim.
Encontrei outros estudantes da mesma universidade todos sentados numa
sala de reunião. Passamos por um briefing sobre a empresa e me
levaram pro meu posto.
O trabalho
consistia em pegar um carrinho cheio de remédios e dali escanear
cada item. Na scanner de mão, dizia o que eu deveria fazer com ele.
Se fosse vencido, colocava em uma prateleira tal. Se fosse violado,
colocaria em outra. E por ai ía. Uma dificuldade tão grande que até
um macaco bem treinado consegueria realizar tal tarefa. O meu chefe,
não tinha um dente sequer na boca. Fiquei impressionado como um
sujeito daquele, num país daqueles, não tinha dente.